Como não morrer tentando ser um gênio criativo
Eu costumo dizer que prefiro fazer mil bons trabalhos do que um único trabalho genial. Podem me julgar, mas vivo feliz com isso.

Desde que o mundo é mundo o ser humano tá aí criando, saindo do zero pra alguma coisa, fazendo dum pedaço de pau uma espada ou uma haste de bandeira. É uma ruma de gente se alimentando da mesma fonte, convivendo num mundo cada vez mais próximo e interativo, e é por isso que eu acho muito difícil ser completamente original com as ideias. E precisa disso? De jeito nenhum. Só besta perde tempo correndo atrás de uma coisa dessa.

"Acabou-se! O poço secou, Chicó. Nenhuma gota de pensamento, nem um clarão de entendimento. Estou como num quarto sem porta, pra onde eu me viro dou com as ventas na parede. Franzino, pobre e, agora, burro! O que me resta é ter que me matar!"

Pra quem trabalha ou já trabalhou comigo, deve ter me escutado algumas vezes repetir essa frase do João Grilo. Eu digo isso no meu momento de desespero, quando na hora que eu mais preciso não aparece uma ideiazinha nem pra fazer remédio, como diz meu pai.

Mas é essa ideia de poço criativo, de fonte de inspiração, que eu venho deixando de lado cada vez mais. Porque, sinceramente, isso só me atrapalhou. Eu comparo essa busca pela criatividade como alguém correndo atrás de um cavalo bonito, forte, indomável que saiu desembestado pela estrada. Rapaz, num tem quem pegue.

Quando eu parei de tentar ser um super criativo na minha profissão, designer, e parei de tentar fazer sempre um trabalho brilhante, foi quando comecei a ter resultados de verdade. E esses resultados são bons trabalhos prontos, entregues no prazo, que cumprem sua função e pagam meus boletos. Eu costumo dizer que prefiro fazer mil bons trabalhos do que um único trabalho genial. Podem me julgar, mas vivo feliz com isso.

Então vamos lá com o prometido do título desse texto.

O primeiro passo para não morrer tentando ser um gênio criativo é ter uma boa base acadêmica. E aqui entra desde palestras, livros, passando por cursos livres até a universidade que você estudou. Quero dizer que você não precisa inventar um abridor de latas, mas saber como um funciona já vai te ajudar um monte.

O segundo passo é roubar. Você precisa de referências. Você precisa de alguém pra olhar e dizer: Ei, isso é muito legal. Quero fazer algo parecido. Quanto mais gente você tiver pra roubar, melhor ainda, porque você vai criar o seu próprio Frankenstein de ideias. Por exemplo, uma banda que tem os Beatles como referência. Massa! Mas se além da sonoridade dos Beatles, essa banda também gosta do visual discoteca dos anos 70 e da levada da guitarra do Ximbinha, temos aí alguma coisa nova. Alguém vai olhar e dizer... Vixe, isso é muito massa!

O terceiro passo é começar. Agora que você já estudou e já tem suas referências pra roubar, é hora de sentar a bunda numa cadeira, pegar suas ferramentas de trabalho e começar a fazer o que tem de ser feito. Aí sabe o que vai acontecer? Você vai achar que está indo por um caminho errado (talvez até esteja mesmo), que está perdido, que o poço secou, e vai começar a fazer uma coisinha que as mentes geniais super criativas não sabem o que é ou, se sabem, tentam evitar porque o criativão é um covarde: repetição. Errar, errar, errar, quase chegar lá, tentar outra vez e aí, opa... alguma coisa aconteceu. Olhe, não tem boa ideia que resista a uma boa repetição. Ela chega.

No fim das contas você vai fazer um monte de trabalho e, aqui e acolá, um deles vai ser rotulado por alguém como criativo. Sem tanto esforço assim, sem você nem perceber.

Tarefinha de casa pra classe:

1 - Assistir ao belo discurso do Neil Gaiman na University of the Arts na Filadélfia. Esse discurso depois virou um livro chamado Faça Boa Arte.

2 - Ler o livro Roube Como Um Artista, do Austin Kleon. 

Se você seguir esses passos e ainda assim continuar criativo, por favor, entre em contato. 

 



Téo Brito é sócio da Printerama, designer, VJ da MtéoV e contra o futebol moderno.
instagram | twitter