Confesso que já tinha mais de 25 anos de América do Sul quando ouvi o disco Alucinação na íntegra pela primeira vez. Antes disso, Belchior era pra mim apenas um rapaz latino-americano que tinha medo de avião. Então, imaginem o meu choque e encantamento ao escutar frases como:

Eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês


A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

Sempre desobedecer
Nunca reverenciar

Fúria, angústia, paixão e melancolia costuram a teia dos versos de Belchior. O canto dele não é para iniciante. Meio que fala. Meio que canta. Estica palavras e espreme versos inteiros. Ambiguidades típicas de um coração selvagem.

De tempos em tempos, escuto Alucinação do começo ao fim. A sua atualidade é inegável. Ao expor seus conflitos, Belchior me coloca diante dos meus e, aí, nesse ponto, não importa que o disco tenha mais de quatro décadas. Dilemas humanos transcendem os anos.

Além de toda a negra iluminação que o álbum traz, existe um pequeno prazer que está reservado somente para os cearenses: o sotaque. Quem não tem raízes no interior do Ceará nunca entenderá o aconchego de ouvir tiuria em vez de teoria. Fora isso, o disco pode ser curtido por todos.

Procura aí nas internet o Alucinação e escuta do começa ao fim. Vai levar menos de 40 minutos, mais rápido que um episódio de muita série ruim. ;)

Para terminar, quero para vocês o mesmo que Belchior desejou para os seus amigos na última faixa do disco:

muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

Antino Silva é sócio da Printerama, jornalista frustrado e, segundo o atual presidente, um mau brasileiro.