Se não me lembro, não fiz!
Quando desejamos não ter experienciado algo, canalizamos muita energia para “apagar” qualquer lembrança do que aconteceu. “Se não me lembro, não fiz!”. E é isso que a LACUNA S.A oferece aos seus clientes em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”.

Imagine que você ganhou a oportunidade de passar 15 dias de férias em qualquer lugar (ou lugares!) do mundo. Poderá se hospedar no hotel que quiser, comer nos melhores restaurantes e ter ingressos para todas as atrações disponíveis. No entanto, no final, deverá tomar uma poção que apagará todas as suas lembranças da viagem e qualquer registro (fotos e vídeos, por exemplo) serão destruídos. E, aí? Vamos nessa?

Aposto que quase todos ainda topariam. De graça, até injeção na testa. Mas também garanto que a exigência final tirou pelo menos metade do tesão de todo mundo. Isso serve para demonstrar a importância que damos para o nosso “eu recordativo” e como somos capazes de menosprezar o “eu experiencial”. O prazer durante a viagem pode ser real e incrível, mas, se não poderemos lembrar (ou postar), lá se vai pelo ralo uma parte da satisfação.

Da mesma maneira que queremos tornar os bons momentos memoráveis, fazemos grande esforço para esquecer os ruins. Assim, quando desejamos não ter experienciado algo, canalizamos muita energia para “apagar” qualquer lembrança do que aconteceu. “Se não me lembro, não fiz!”. E é isso que a LACUNA S.A oferece aos seus clientes em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”.

Joel (Jim Carrey) descobre que sua ex-namorada Clementine (Kate Winslet) passou por um procedimento para apagá-lo da memória. Indignado, ele resolve fazer o mesmo e também contrata o serviço da LACUNA S.A para retirar todas os vestígios de Clementine da sua mente. O filme é excelente e constrói cenas lindas para representar metaforicamente o processo de destruição das recordações. Se não assistiu ainda, recomendo fortemente.

A proposta da LACUNA S.A é muito tentadora, mas, no fim das contas, ela não nos ajuda de verdade. O sofrimento causado por uma experiência dolorosa é parte do que nos faz quem somos e nos ajuda com os próximos problemas. A aflição pela morte de um parente, por exemplo, nos deixará mal por um tempo. No entanto, ela pavimenta o caminho para as perdas seguintes que inevitavelmente sofreremos ao longo da vida.

Falar é fácil. Mas, se tiver difícil lidar com algumas lembranças, procure ajuda. Pode ser uma cerveja com um amigo ou uma sessão de terapia. Só não tente apagar tudo. ;)

Antino Silva é jornalista e só estava tentando recomendar um bom filme, mas acabou escrevendo algumas frases aqui que você poderá receber junto com uma imagem de um pôr-do-sol no grupo de Whatsapp “Família Abençoada”. Ele vai ter que lidar com isso...